Capítulo XII - Sobre impermanência e mochilas

“Dois monges japoneses, um velho e outro jovem, andavam por uma trilha lamacenta na floresta, em direção ao templo. Num dado momento, cruzaram com uma linda moça, desamparada na beira de um rio de águas turbulentas.

Entendendo o problema, o mais velho a tomou no colo e atravessou o regato. Ela gracejava, com os braços em torno do pescoço dele, até ser colocada novamente em terra firme. A mulher agradeceu e os monges seguiram sua jornada calados.

Ao se aproximarem do mosteiro, o jovem acólito não conseguiu mais se conter. ‘Como pôde carregar uma mulher nos seus braços? Esse comportamento não é digno de um monge!’.

O velho olhou para o seu amigo e disse: ‘Eu a deixei lá atrás. Você ainda a está carregando?’”.





(...) Continuamos nosso relacionamento à distância, fomentando a esperança de nos reencontrarmos durante e após a viagem, se a sorte assim quisesse. Mas logo o peso de abrir mão de uma vida estável para viver com um andarilho em algum país desconhecido, amplificado pela responsabilidade de cuidar de uma filha pequena, afastar-nos-ia mais do que a própria distância. Turkan amou-me durante quatro meses e seis países; nada menos. Nosso romance morreria numa fria ligação, tempos depois, quando eu estava prestes a adentrar numa perigosa selva nepalense.


Buda dizia que só existe uma coisa que nunca muda: o fato de que todas as coisas mudam. Tudo é impermanente e até mesmo o fim é uma solução. Compreender que todas as coisas irão, eventualmente, desaparecer, não é motivo para o pesar e a desesperança. “Há coisas que são preciosas por não durarem”, entendia Dorian Gray. A finitude dos fenômenos faz deles mais belos, revelando o valor intrínseco a cada momento. A mudança não é algo doloroso, penosa é a resistência àquilo que é inevitável. Bendita seja a impermanência! Penso em como seria a vida se nada nunca se alterasse. Quantos sofrimentos ainda estaríamos vivendo? Quantas experiências maravilhosas e aprendizados jamais teriam acontecido? A mudança permite o frescor da vida, renovar os votos, começar de novo tantas e quantas vezes forem necessárias.

A Vida é movimento e é somente através da mudança que a evolução ocorre. Se as coisas permanecessem sempre as mesmas, seriamos ainda seres unicelulares ou menos. Não, não tenho medo da impermanência. Jamais temerei o futuro. Entre tropeços e acertos, avanços e retrocessos, a história segue seu perene rumo.


E a minha levava, agora, a um reencontro. Segui viagem para Istambul, lá encontraria minha gangue de amigos turcos que conhecera em Barcelona. Capital de dois mundos, desde Constantinopla ao Império Otomano, Istambul é a única cidade no planeta situada em dois continentes. As ruas unem modernidade e tradição, oferecendo espaço para burcas reacionárias e minissaias chamativas. Enormes basílicas e minaretes se avultam por entre exuberantes jardins, com abóbadas colossais e impressionantes vitrais. Cisternas e galerias subterrâneas escondem estátuas e templos pagãos de uma era há muito esquecida.


Novamente fui acolhido por Cenk, desta vez não em um pequeno apartamento, mas numa vistosa mansão em meio à floresta. Os pais de meu amigo também eram artistas e ministravam uma proeminente escola de dança. Cenktan herdara de sua família não somente o talento, como também a lendária hospitalidade turca: recebi alguns presentes generosos de meus novos amigos, mas não havia espaço para eles, minha mochila estava abarrotada.


Enquanto tentava (sem sucesso) arranjar espaço na bagagem, lembrei-me das palavras de mestre Paris, antes de deixar o Brasil: “André, leva contigo apenas uma mochila! Se o que precisas para viver não couber em uma mala há algo errado em tua vida”.


Seu conselho, à época, mostrou-me o quanto de futilidade costumava trazer comigo. Uma mochila seria meu lar por todo aquele ano e fazer a vida caber numa bolsa se revelou não apenas um verdadeiro desafio, como também um valioso ensinamento para distinguir luxo de necessidade. Não tinha a intenção de despachar nenhuma bagagem durante a jornada, pois isso implicaria em custos extras, além de possíveis extravios e atrasos. Isso significava que minha carga deveria ter um peso limite, preferencialmente sete quilos. Escolhendo entre o útil e o indispensável, consegui apertar tudo em um mochilão de setenta litros. A balança anunciava quatorze quilos, o mínimo que consegui alcançar. Era um tanto pesado, mas hastes de metal alinhavam a mochila à coluna e alças e fivelas confortáveis distribuíam o peso entre a cintura e o peito, tornando-a suportável.


Naquele tempo, não conseguia pensar em mais nada que pudesse me desfazer, tudo parecia tão essencial... Para não ter de carregar muitas roupas de frio, decidira acompanhar o verão pelo mundo, trocando de lado no globo junto com as estações e buscando sempre ficar próximo da linha do Equador. Trazia comigo algumas mudas de roupas leves e de secagem rápida, duas calças que se transformavam em shorts, uma jaqueta fleece, um casaco corta vento, uma bota, um tênis fino, uma sandália de borracha, saco de dormir, toalha de microfibra, kit de primeiros socorros, itens de higiene pessoal, óculos de sol, um boné estranho que nunca usei, capa de chuva, um belo diário moleskine, uma lanterna que dispensava bateria, um apito-bússola, bandeira do Brasil, meus eletrônicos (quase todos foram roubados) e meus livros, é claro. Apesar de todo o esforço para reduzir o que era possível, minha mala permanecia absolutamente estufada.


Vagueando pelo mundo, logo percebi que cargas densas tornam penoso o caminhar, castigam as costas e nos impelem a olhar ao chão, tolhendo a autêntica apreciação da estrada. Compreendi, ainda, que enquanto a mochila estivesse cheia, não haveria espaço para as maravilhosas novidades que encontrava pelo caminho.

Não são apenas entulhos materiais que saturam as nossas bagagens. Trazemos conosco um excesso de passado, sentimentos velhos e mágoas apodrecidas. Apegados àquilo que já foi, carregamos coisas que não mais nos servem, e que, talvez, melhor vistam a outras pessoas. O anseio de manter conosco algo que, certa feita, já trouxe algum sentimento positivo é natural. Deslembramos, porém, de observar o prazo de validade, sustentando indeterminadamente coisas – e relações - há muito obsoletas.


Decidi deixar metade da bagagem na Turquia. A vereda ensinava a me desfazer dos excessos. Comecei esta viagem com sete camisetas, julgando ser pouco, findei com três sabendo que era mais do que o suficiente. Ao passo em que desocupava a mochila, procurava também esvaziar as cargas do coração.


Quanto menos possuo, mais livre sou. Assim, escolhi ter menos, para poder ser mais. Havia ainda um longo caminho à frente. Estava, porém, mais leve. Nada faltaria, tinha a Vida ao meu lado.




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