Capítulo XIII - Lou(cura)

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.”

- Nietzsche

“Conta-se que, uma vez, governava a distante cidade de Wirani um rei poderoso e sábio. Era temido por seu poder e amado por sua sabedoria. No coração daquela cidade havia um poço cuja água era fria e cristalina, e dela bebiam todos os habitantes, à exceção do rei, que possuía seu poço particular.


Uma noite, quando todos dormiam, uma invejosa feiticeira chegou à urbe e verteu no poço público uma poção amaldiçoada, dizendo ‘quem beber desta água ficará louco’.


Na manhã seguinte, todos os habitantes, menos o rei, beberam da água do poço e ficaram loucos, tal como a feiticeira havia predito. Durante aquele dia, os habitantes, nas ruas estreitas e nos mercados, não faziam senão sussurrar, uns aos outros:


‘O rei está louco. Nosso rei perdeu a razão. Naturalmente não podemos ser governados por um rei louco. Precisamos destroná-lo.’


Preocupado, o rei mandou que enchessem com água do poço envenenado uma taça dourada. Quando a trouxeram, dela bebeu copiosamente.


E houve grande júbilo na cidade de Wirani, pois o rei havia recuperado a razão”.


Desembarquei no Egito com a intenção de dar vida às histórias contidas nos filmes e livros da infância. Não importam quais os pretextos que um homem possa encontrar para visitar as pirâmides, tenho por certo que o motivo verdadeiro sempre serão as fantasias de sua criança interior. E, talvez, essa seja a razão original por trás de qualquer ação. Por muitos anos havia calado a minha, era hora de deixá-la brincar. Como se o Grande Pai cuidasse de mim, não precisei procurar hospedagem, uma vez mais, foi ela quem me encontrou. Na caótica cidade do Cairo, fui recebido pelo amor em pessoa – um corpo deformado, vaso de uma alma luminosa. Professor, ator e teólogo, Nagui é uma joia reluzente em meio à lama do atual Nilo.


Seguindo o conselho de meu anfitrião, aluguei um camelo e fui conhecer as milenares Pirâmides de Gizé. Acima do chão, as célebres construções sublevam-se esotericamente em direção ao firmamento. No subsolo, incontáveis tumbas e corredores escondem-se em silêncio. O que está embaixo é como o que está no alto. Sobre e sob a terra, sobravam guias turísticos tentando usurpar meu dinheiro. Desci ao túmulo dos antigos reis para fugir dos vigaristas e do calor, onde hieróglifos em alto relevo narravam, em suas paredes primitivas, histórias além de minha compreensão, ocultando segredos que remetem ao tempo de Hermes Trimegisto. Na ânsia de eternizar suas almas, os faraós acabaram por preservar a história.


Ajudei a capturar um camelo subversivo e me senti como Rick O’Connel no filme “A Múmia”. Tive esperança que isso pudesse me render algum desconto, mas quase me cobraram mais por retardar o passeio. Ainda no mesmo dia, tive tempo de explorar a pirâmide mais antiga do mundo, em Saqqara - erigida há mais de 4.600 anos. Os egípcios, a valer, já possuíam sociedades bastante desenvolvidas enquanto seus vizinhos europeus ainda viviam em peles de animais.

Era inconcebível crer que, ainda nos primórdios da civilização, o homem fosse capaz de conceber monumentos daquela complexidade, numa simetria tão impecável que mesmo hoje nos custa entender o mistério de sua construção. Fascinado pela magnanimidade e pelos enigmas dos levantamentos, escalei os gigantescos blocos de calcário perfeitamente alinhados da pirâmide de Dahshur, até chegar a uma pequena entrada que leva ao interior da tumba real. Segui por um estreito túnel de pedra para chegar ao âmago do mortuário, onde as múmias dos faraós eram sepultadas junto de seus barcos, para navegar ao lado do Rei-Sol. A atmosfera era carregada por uma aura misticamente eletrizante, como se as paredes estivessem envoltas por um poderoso feitiço ancestral. Na saída, um soldado gentilmente se ofereceu para tirar uma foto minha e depois me cobrou cinquenta libras egípcias. Achei melhor não contrariar ele e o seu fuzil AK-47.


Tomei um trem em direção à Alexandria. A cidade, que fora a capital do Egito por mais de mil anos, abarcando gregos, egípcios, persas, judeus, árabes e tantos outros, discrepa positivamente do restante do país. O povo é mais educado, as ruas organizadas e o conhecimento recebe o seu devido valor na fenomenal Biblioteca Alexandrina, a maior e mais diversificada de todo o continente. Hoje moderna e ostentando uma arquitetura refinada, essa casa do saber remonta a tempos antes de Cristo, quando a erudição era algo tão apreciado que o cargo de bibliotecário-chefe era escolhido diretamente pelo rei. Muito dessa sabedoria se perdeu ao longo de saques, incêndios e depredações através dos séculos, juntamente com o respeito por ela.

Voltei para a cidade do Cairo com alguns livros a mais e passei os últimos dias no país visitando museus e monumentos. De frente para a mística Esfinge, não fui capaz de decifrá-la, ainda não era capaz de compreender nem a mim mesmo. Ela não me devorou, mas o Sol lancinante me consumia diante daquele cenário monocromático. O Egito é um país tão quente e árido que pouca vida poderia prosperar num ambiente como aquele, não fosse pelo maior rio do mundo. As caudalosas águas do Nilo, ladeadas por selvas de palmeiras espessas, contrastam com a aridez do deserto e as florestas de corais no Mar Vermelho compensam a ausência de vegetação terrena. A discrepância, entretanto, não se limita à natureza, centenas de relíquias e sarcófagos antediluvianos, esculpidos em ouro maciço, enaltecem a glória de tempos dourados, ao passo em que salientam a decadência vigente no país. A magnificência do Antigo Egito foi sepultada junto de seus reis. A nação, que outrora fora o maior império do mundo, agora não é nem senhora de si. A Joia do Nilo tem seu brilho desgastado pelo descaso e pela ganância.

O Egito contemporâneo vive um caos político, econômico e social. A sociedade e as estruturas governamentais parecem estar em vias de colapsar. Há lixo, poluição e miséria a cada esquina. O sonho da democracia, inflamado pelos jovens que forçaram a renúncia do ditador egípcio em 2011, deu lugar a um opressivo regime militar que comanda o país com mão de ferro. A desigualdade social é gritante e a corrupção é generalizada. Nem mesmo o passado está a salvo, funcionários do governo tentaram me vender, ilegalmente, pedaços das pirâmides. Nesse mesmo dia, fui denunciar a um policial sobre um guia que tentava me extorquir e, então, a própria polícia me chantageou. Até mesmo o caixa eletrônico quase furtou o meu cartão! O trânsito é ainda mais caótico e desorganizado que a cidade em si, os congestionamentos e a algazarra das buzinas se estendem durante toda a madrugada. As mulheres são brutalmente oprimidas: nove em cada dez delas têm o clitóris mutilado para que não possam sentir prazer sexual (a insegurança masculina pode atingir patamares inconcebivelmente bárbaros!). Os homossexuais, como meu amigo Nagui, também são severamente humilhados e, alguns deles, talvez vexados da própria condição, condenam o casamento gay – tamanha é a loucura.


Todas essas bestialidades são encaradas com naturalidade pelo povo egípcio, que definha num tóxico estado de normose. Normose, segundo o psicólogo Pierre Weil, é a doença da normalidade. Não a vulgaridade de se comprar um pão quentinho todas as manhãs ou de se prosear com o vizinho, mas os hábitos, comportamentos e estereótipos nocivos que incorporamos ao nosso cotidiano, como os jornais que sangram, a cultura do ódio, a crescente dependência de pílulas para poder dormir e essa inquietude incessante que nos impele a correr cada vez mais, sem saber bem para onde. “Não é sinal de saúde estar adaptado a uma sociedade doente”, afirmava o filósofo indiano Krishnamurti; acostumamo-nos com situações doentias e as consideramos perfeitamente naturais. Ajustamo-nos a padrões e formas que nos são inadequados e, invariavelmente, sentimo-nos desencaixados.

Normalidade, assim, não é sinônimo de salubridade. Vale lembrar (e que jamais esqueçamos disso!) que já foi normal e amplamente aceito escravizarmos nossos iguais pela cor da pele e queimar pessoas em praça pública por sua fé. A normose, porém, é um mal que ultrapassa os ciclos da história. Hoje se tornou comum encontrar uma farmácia a cada esquina, viver em melancolia constante ou odiar - e até agredir - por pequenas desavenças, como uma simples fechada no trânsito ou a cor da camisa que o outro veste. Banalizaram-se os desastres ambientais, a ausência dos sorrisos, dos desejos de bom dia e a incapacidade de olharmos uns aos outros nos olhos. Virou rotina perceber a Existência como um pesado fardo, tornou-se normal não ser feliz.


Face a tantos disparates, sentia-me como num sanatório a céu aberto. Minha renúncia em integrar o circo de desvarios normóticos me conferia o status de estranho, atraindo olhares de reprovação e julgamento. Tinham-me como desequilibrado por caminhar sem rumo e desacompanhado, por agradecer as pessoas que me roubaram e, definitivamente, acharam que havia enlouquecido quando decidi morar numa caverna (bem, isso realmente foi um tanto doido). O riso leve e lúcido arde aos olhos daqueles agrilhoados pela escuridão. Cantar pelas ruas, vestir-me de forma extravagante e sorrir nas adversidades colocava meu juízo sob xeque constante da opinião pública, em qualquer nação que fosse (à exceção da Índia, talvez).


O título de insano, porém, não me era novidade. Fui tomado por louco quando abri mão de uma vida estável em prol do desconhecido. Julgaram-me insensato por renunciar ao poder e ao prestígio social em favor de liberdades que considero fundamentais, mas que pouco valor tem ao mundo moderno. Contudo, o que mais me doeu, certamente, foi ser condenado e difamado por pessoas a quem muito amor tenho, incapazes de entender as minhas escolhas.


Prefiro, contanto, a sensatez de Tyler Duden: insanidade é gastar a vida trabalhando em algo que odiamos, para comprar coisas que não precisamos, visando impressionar pessoas que em nada se importam conosco. Loucura seria sacrificar meus princípios e dignidade para satisfazer padrões ufanos e cavos, tantas vezes nem mesmo autênticos, moldados em obediência ao medo da solidão. Não, eu não abdicaria da sanidade apenas para poder fazer parte do manicômio.


Alegro-me, pois, quando chamado de louco pelos verdadeiros perturbados da humanidade, que renunciam aos inestimáveis tesouros da alma em nome de prazeres superficiais, ouro dos tolos. A loucura possui sua própria lucidez. Nesta terra de hipocrisias e disparates, perder a razão é crucial para manter a sobriedade.


Era minha última noite e fui a um bar clandestino com Nagui e outros turistas. Nossa despedida foi regada a muitos copos e saudações. “Abençoados sejam os viajantes!”, brindei junto aos peregrinos ébrios, “esses lunáticos que se reconhecem pelas botas sujas, carteiras vazias, mochilas carregadas e fogo nos olhos, como uma tribo sempre distante, mas nunca apartada”. Dei um último trago e vesti a mochila como quem se despe da camisa de força. A lógica, ao menos, era aparato dispensável para o próximo país.



1. Conto de Khalil Gibran (1883-1931), filósofo e escritor libanês.


2. Lei da Correspondência Hermética.


3. Hermes Trimegistro foi um legislador e filósofo egípcio que viveu aproximadamente entre 1.500 e 2.500 a.C. Suposto compilador dos conhecimentos da antiga filosofia esotérica egípcia.


4. Personagem do filme “A Múmia” (1999), dirigido por Stephen Sommers.


5. No mito do dramaturgo grego Sófocles, na tragédia de Édipo rei, a Esfinge era (tal como o monumento egípcio) um monstro metade homem, metade leão, que atormentava os homens da cidade de Tebas com o famoso enigma “decifra-me ou devoro-te”, aniquilando aqueles que não eram capazes de responder à pergunta.


6. O então presidente egípcio Hosni Mubarak foi forçado a deixar o poder em 2011 após uma série de protestos populares conhecidos como “Primavera Árabe”.


7. Pierre W. descreve a “normose” como o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos e hábitos aprovados pela maioria de pessoas de uma determinada sociedade, que levam a sofrimentos, doenças e morte.


8. Jiddu Krishnamurti (1895-1985), filósofo indiano.


9. Personagem central da obra “O Clube da Luta” (1996), do escritor estadunidense Chuck Palahniuk.






33 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo