Capítulo XVII – A caverna

A sabedoria das sombras

‘“A caverna que você teme penetrar guarda o tesouro que você busca.”

- Joseph Campbell


Era uma pequena gruta semicircular, com menos de cinco metros quadrados. Imagens dos gurus de Mani eram iluminadas por um pequenino e rústico pote de argila, onde óleo devocional queimava incessantemente, fornecendo uma luz trêmula nas noites escuras. Nas paredes irregulares de rocha bruta, a insígnia de Shiva pintada à mão, com a marca das três gunas, provocava um autêntico sentimento de ter me teleportado para a idade das pedras. Não trazia nada comigo, senão um pequeno caderno, de onde sairiam as primeiras páginas deste livro, um japamala de rudrakshas, uma câmera e um pedaço de pano que me servia de assento para meditar e também como roupa (apesar de passar a maior parte do tempo totalmente nu).


Havia uma diminuta queda d’água que minguava sob o calor, mas bastava ao banho e à sede. Bandos de macacos se sentavam à beira de pequenas piscinas naturais formadas pela fonte, para se refrescarem. Quanto à comida, eu caçava. Tudo bem, isso é uma mentira... Meu amigo Arunachala trazia alimentos frescos da cidade, semanalmente. Comíamos com a mão, honrando os costumes locais, fazendo de prato uma folha lisa e larga fornecida pelas árvores da região. As refeições eram essencialmente vegetarianas. Já vinha seguindo esse tipo de dieta desde Rishikesh e notava claramente os efeitos positivos no organismo e no humor. Somos o que comemos. E também o que pensamos. As privações não seriam apenas físicas, meu acerto era com a mente.


Sentado numa rocha plana, Mani me ensinava a respiração yóguica, reequilibrando o fluxo energético interno e favorecendo a meditação. Com a coluna ereta e o queixo paralelo ao chão, trazíamos a atenção para dentro e inspirávamos pelas narinas, inflando completamente o abdômen, depois o tórax e, por fim, a traqueia, até o ápice da capacidade respiratória. Então, um segundo de retenção, silenciando corpo e pensamento, seguido pela suave soltura do ar, percorrendo o caminho inverso, esvaziando-nos por completo. Um novo hiato, e o ciclo recomeçava, sucessivamente. Inspirando atenção, repousando no espaço, exalando relaxamento. Dentro e fora. Cheio e vazio. Até que não houvesse mais ninguém ali e o próprio Universo respirasse o nosso corpo. Respiramos cerca de 23.000 vezes por dia, mas fazemos isso inconscientemente, assim como tendemos a fazer tudo de forma desatenta: vivemos entre tropeços, atitudes impensadas e agimos de maneira reativa. Estar consciente sobre nossa respiração é estar consciente sobre nós próprios. Incontáveis erros e tragédias poderiam ser evitados se apenas trouxéssemos a nossa atenção para dentro.



Aprendi muito com o velho saddhu, ainda que nossas aulas fossem silenciosas. Mani sabia respeitar meu espaço e evitava o contato, deixando-me sozinho na montanha a maior parte do tempo. A introspecção é um poderoso caminho para compreender e aprimorar a mais importante de todas as relações: aquela consigo mesmo. “A solidão é a mãe da sabedoria. Livre dos ruídos do mundo, restava-me ouvir a confusão interna. Sem a presença do outro a quem pudesse atribuir a culpa de minhas frustrações, o isolamento compelia a fitar-me de frente, reconhecendo as próprias incoerências e limitações. Sem suporte para se ancorarem, as cortinas das delusões começavam a cair e, de repente, encontrava-me despido de todas as aparências.


Assustado com os fantasmas que se descortinavam dentro de mim, sentia medo e vergonha. Um rosto deformado, escondido atrás de hipocrisias e disfarces, revelava sua forma grotesca. E também a sua agonia. Nossa agonia. Reconhecer as manchas e fissuras que encontramos no espelho é algo custoso; ignorar nossos fantasmas, porém, não anula sua existência, mas avulta o seu poder. Negar as trevas é sucumbir a elas. Por medo da morte, deixamos de viver. Com receio da falha, abstemo-nos do sucesso. Deixamos de rir por temer o choro e, por aversão ao sofrimento, abdicamos da própria felicidade.


Perceber meus enganos e imperfeições doía, é claro. Porém, é a mesma dor de olhos acostumados à escuridão ao se depararem com a luz, a mesma angústia de se tirar um espinho do pé. Era isso ou, então, passar o resto da vida cego e manco.

Nossas dores não são inimigas. São mensagens importantes de nosso guardião interno, tentando alertar que há algo em nós que não está bem e precisa de atenção. São parte daquilo que somos e, enquanto negá-las, invariavelmente nos sentiremos incompletos. É fundamental abraçar-se por inteiro, não é possível ser livre pela metade. Da mesma forma que um médico precisa ouvir e analisar um paciente e conhecer seus sintomas para saber qual tratamento prescrever, é vital que sejamos capazes de escutar e acolher nossas sombras, sem medo ou julgamento. Conhecê-las e aceitá-las é o primeiro passo para transformá-las em luz.


Tal como um diamante não tem seu valor diminuído por estar encoberto pela lama, nossa verdadeira natureza não deixa de existir apenas por estar envolta em escuridão. Cada vício, cada imperfeição, carrega em si a semente de uma virtude. Reconhecer os próprios defeitos não é apenas sinal de humildade, mas também de ambição. É buscar tornar-se melhor. As sombras, assim, são valiosas ferramentas para aperfeiçoar a si próprio. São, também, perigosas. No silêncio da caverna, minhas trevas adquiriam proporções vultuosas, e não havia canto que as ocultasse. Face a face com meus monstros, entendi que não deveria reprimi-los e tampouco alimentá-los, mas sim observá-los de modo impessoal e lúcido, dissecando cada mal até a origem, de modo a transmutá-los em algo positivo. Mesmo o sofrimento tem o seu valor. Luz e escuridão caminham de mãos dadas: sem o medo, jamais seria capaz de descobrir a coragem; por meio das mágoas, encontrei o perdão; e, através do sofrimento, pude redescobrir a felicidade.


A ferramenta que permite a transformação é, e sempre será, o Amor,lembrei-me da sabedoria do Velho, em meio à penumbra. Fazendo da sinceridade amorosa um milagroso emplastro, acolhia cada suplício como quem ampara um querido filho desviado. Entregava-me às sombras por completo, e por completo emergia em rumo à luz.


O processo de conhecer a si próprio nunca é fácil. Pode haver muita sujeira ali presente e é penoso remover camadas do ego que há muito estão incrustadas. É um caminho onde se fazem necessários o comprometimento, a coragem e a atenção - permitir que a solidão corte fundo, tal como a febre que purifica o corpo, deixando que as identidades entrem em colapso. É preciso morrer, mas não há tristeza nessa morte. Como poderia haver tristeza se morremos apenas para aquilo que é falso? Perdemos nossas ilusões. Conserva-se somente aquilo que é verdadeiro e transcendental - aquilo que verdadeiramente somos.


Não são as condições, mas sim o autoconhecimento, que leva à liberdade. O coração clareava, mostrando-me que não é preciso morar numa gruta em meio à selva e livre de bens materiais para poder me encontrar. Adentrar a caverna significa mergulhar em si, penetrar a própria essência, onde quer que seja.


Passei três semanas morando na singela toca de pedra do monte sagrado, mas não havia a presença do tempo neste período. Os dias transcorriam um atrás do outro, livres dos grilhões dos relógios e das urgências mundanas. Os maiores problemas eram os macacos, que tentavam furtar (constantemente com sucesso) nossa comida. Explorava a montanha a pés descalços, absorvendo o calor das rochas nuas, procurando lugares para meditar e apreciando a paisagem circundante. Lá embaixo, na cidade, pequenas formigas atarefadas e barulhentas moviam-se incessantemente, o longínquo som dos tuk-tuks, com suas buzinas incansáveis, acentuava a minha vontade de permanecer isolado. Nos finais de tarde, fumava “bidi” junto de Mani, conversando longamente, mesmo sem entendermos qualquer palavra que o outro pronunciava.


Fazia um calor lancinante no sul da Índia e as tardes ensolaradas tornavam a rocha abrasiva. As bolhas e queimaduras na sola dos pés logo se transformaram em duras crostas que mui bem substituíam os sapatos. Minha barba crescera tanto que o bigode já fazia parte das refeições. Não havia muito o que fazer e fazer nada já bastava. Isento do ônus de pensar, calcular e planejar, aprendia a apreciar o ócio e o galgar das horas sem qualquer pretensão.

Certa noite, meu colega acendeu uma fogueira dentro da gruta para espantar os mosquitos, acabando por quase nos matar asfixiados. Fizemos alguns pequenos reparos na caverna, usando pedras lascadas como ferramentas, conferindo-me a sensação de ter me tornado um legítimo homo-erectus. A montanha toda era o meu banheiro e os besouros-roladores cumpriam com presteza o papel da descarga. Era libertador fazer as necessidades a céu aberto e me sentia como um verdadeiro rei tendo a cidade sob os pés. Havia uma garrafa de água para beber e outra para se limpar, mas um dia quase confundi as duas, não fosse o alerta de Mani. Dormíamos diretamente sobre a rocha lisa e eu usava uma esteira de yoga para amenizar o desconforto, o que não era grande coisa.


Sentia falta de meus amigos e da família, é claro, tanto os que deixara no Brasil quanto os que a estrada trouxera. Uma nostalgia pungente, que por vezes arrancava lágrimas de amor. “Muitas saudades para muitos amigos”, pensei enquanto lavava os dentes ao lado de um córrego, “é um preço que vale ser pago”. Também estimava a solidão, entendendo que se não fosse capaz de ficar bem sozinho, estaria em péssima companhia onde quer que fosse.

Tudo era simples e agradável: levantava-me ao nascer do Sol e me deitava ao poente. O cotidiano consistia em praticar yoga, escrever e caminhar pela montanha. Meditava durante manhã, tarde e noite. Eu simplesmente era com a Existência ao redor. Em cada respiração, no gosto da comida, no cheiro das árvores, estava a Vida. Você consegue senti-la, querido leitor? Pode escutá-la no canto dos pássaros, no correr de um rio, no farfalhar do vento? É capaz de percebê-la no brilho dos olhos de quem está a sua frente?


Era um dia calmo e o sol brilhava num céu azul-infante, efluindo mansidão. Havia levantado cedo e feito alguns exercícios de pranayama, seguido por um alongamento relaxante. Tomei um desjejum leve e modesto, como de costume, e fui me banhar na cascata. Saí para andar a esmo pela montanha, ainda de manhã, levando comida para o resto do dia. Subi um íngreme paredão com cerca de vinte metros e lá encontrei uma confortável curvatura sobre as rochas, oferecendo uma bela visão do principal templo da cidade. Descansando sob a sombra fresca de uma árvore frondosa, contemplava a magnificência da terra que se estendia à frente até encontrar o firmamento, embebendo-me em silêncio. Então, tudo se tornou claro.


Entendi que meus maiores medos não eram a ausência de recursos financeiros, fracassar profissionalmente ou passar o resto da vida sozinho. O que realmente temia era viver uma vida morna, cego para a exuberante beleza em cada expressão da Existência. Percebi que não receava sofrer por amor e, sim, não ser capaz de amar plenamente. Meu temor não era a pobreza material, mas a miséria do espírito. Estar desatento aos verdadeiros tesouros desse mundo, essa seria a minha perdição. Não tinha medo de morrer, mas de chegar ao final dessa existência sem nunca ter vivido.


Voltei a mim quando um macaco tentava roubar as bananas, mas havia uma serenidade que jamais poderia ser furtada. Um silêncio mais alto do que qualquer outro som. Abri os olhos e lágrimas verteram por minha face, encontrando na minha boca um sorriso. Tudo era lindo, eu estava vivo.


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