Cap. XVII - As Fronteiras do Coração

Tinha feito minha escolha e estava satisfeito. Pela resposta imediata, creio que o Universo também aprovara a minha decisão. Contemplava despretensiosamente o oceano azulado que dançava ao ritmo do vento litorâneo, quando meus olhos distraídos se tornaram cativos daquele cintilante tesouro russo-azerbaijano que surgia em nosso navio. Homens fisgam peixes, mas são fisgados pelas sereias.


Chamava-se Turkan. Sua pele era tenra e firme como as mais suntuosas sedas. Cachos opulentos, feito ouro trabalhado, reluziam sob o sol em zênite. Dois grandes diamantes ocupavam o lugar de seus olhos, claros e penetrantes, sugando-me como uma draga - os olhos de ressaca, a que se referia Santiago. E o seu espírito... seu espírito pertencia a um campo onde palavras não podem chegar.


E o seu espírito... seu espírito pertencia a um campo onde palavras não podem chegar.

As mais belas paixões são aquelas que surgem ao primeiro olhar. Sem vacilar, fui a ela com a audácia que nunca tive e a fiz sorrir. “Deus, que sorriso lindo”, eu pensei, enquanto nossos olhos conversaram para além das palavras. Com o cabelo desordenado e roupas simples, comportava-me como um paladino errático, mas ela talvez me visse como um príncipe exilado. A prosa era doce e o toque um alento, como duas almas que há muito se conhecem. Sentia uma vontade irrefreável de tê-la ali mesmo, na proa aberta, descer minha boca ávida em seus lábios crassos, indiferente aos olhos públicos. A atração era tanta que o ar se tornava denso e o corpo pulsava elétrico. O atracar do barco, porém, dava fim àquilo que nem havia começado:


Nós temos tanto em comum...”, quase não fui capaz de distinguir as palavras que floresciam daquela boca hipnotizante, “mas preciso voltar ao trabalho amanhã”, lamentou minha rainha.


Entendo... Também devo seguir viagem, ainda esta noite. Mas não me importo em perder tempo com quem faz o tempo se perder. Basta pedir que eu fique...”.

Então fique”, disse Turkan, suplicante e resoluta, interrompendo minha sentença.


O homem gosta de se apressar por coisas pouco preciosas. Apressam-se as refeições, o tempo e as relações - depressa passa a vida. Há que se encontrar tempo para o coração, pois tempo que se divide, é tempo que se multiplica, e nada é mais urgente que o amor.


Amamo-nos durante toda a madrugada, na deserta praia de Ölüdeniz, sob uma brilhante abóbada constelada. As pernas se confundiam nas areias e nem mesmo o mar gelado arrefecia o nosso ardor. Acolhia-a em meus braços como se uma estrela sagrada houvesse decidido me outorgar a sua luz, enquanto ela me recebia em absoluta rendição. Os quadris oscilavam junto às ondas e o marulho camuflava o nosso alarido. Toda a minha espera era compensada, transcendendo céu e inferno, anjos caídos têm o sabor do livramento e o calor do profano.


Uma noite converteu-se em um mês e logo nos percebemos numa voluptuosa e intensa lua de mel, desde o primeiro encontro. De mãos dadas e corações enleados, seguimos viagem até as praias de Esmirna, alheios aos efeitos do tempo e às preocupações do mundo. Feito vórtice no espaço, tínhamos um ao outro aos gritos e também no silêncio que confessa a comunhão, como adolescentes que descobriam os mistérios do amor. Ela se entregava a mim na mesma medida em que eu me dava a ela. A entrega era completa.


Chamava-me de seu rei. Meu reino era seu corpo, seu coração era minha fortaleza sagrada e todas as noites ela me coroava com suas pernas douradas. Contemplando-a banhar seus traços flavos e angelicais sob as ondas preguiçosas, meu semblante fascinado se perguntava por qual bendita razão uma deusa assim se ofertava a um pobre mortal.


Chamava-me de seu rei. Meu reino era seu corpo, seu coração era minha fortaleza sagrada e todas as noites ela me coroava com suas pernas douradas.

O Amor às vezes quer nos fazer um grande favor: virar-nos de cabeça pra baixo e chacoalhar tudo o que não faz sentido para fora”, os versos do poeta persa traduziam meu sentimento, enquanto me perdia naqueles olhos índigos, mais profundos e perigosos que o próprio oceano.


As paixões realizam sua função quando nos permitimos amar abertamente, livres da pretensão que sufoca ou do fardo do apego. Os romances autênticos conduzem à fuga do frio e insosso domínio da racionalidade para o lúdico e colorido baile da alma. Opostamente aos desejos, prole dos sentidos físicos e da mente, as paixões genuínas brotam do coração. Enquanto os desejos se movem pela necessidade de satisfação, as paixões anseiam em satisfazer. Aqueles visam obter, estas contentam-se em dar. O desejo traz peso, as paixões da alma, leveza.


É capaz de se recordar da sensação de estar apaixonado, querido leitor? Como até mesmo os dias mais cinzentos se revertem numa diversificada aquarela? Lembra-se do imensurável contentamento advindo pelo simples fato de amar? Grandes mestres afirmam que a iluminação é como estar constantemente enamorado, não por algo ou alguém em específico, mas pela própria Existência. Assim, as paixões cumprem o seu papel ao mostrar como deveríamos gozar a vida: amando sem ressalvas, inebriados pelo próprio viver e em constante êxtase pelo simples fato de ser.


Feito recém-casados, seguimos nossa aventura pelas egrégias praias recônditas de Çesme e Alaçati. Gostava de me sentar à orla apenas para ver seus cabelos loiros vibrando ao vento litoral, contrastando com sua pele bronzeada, suave como os sonhos. Ela sabia do poder de seu charme, e de relance me mirava, com um sorriso tão sedutor quanto pueril, disparando um feitiço que de bom grado eu recebia. Conhecia todos os seus traços e encantos, como se eu mesmo a houvesse concebido. Dedicava-me ao estudo do russo, à medida em que ela aprendia o português. Ela gostava de samba, e eu gostava dela. Mais velha do que eu, Turkan me fazia homem, enquanto eu despertava nela uma menina. Num romance atemporal entre Marco Polo e Helena de Troia, visitamos as ruínas de Éfeso. Na casa onde Maria viveu seus últimos dias, após a morte do filho Jesus, fizemos todas as promessas tolas e vazias que os apaixonados fazem. Turkan venderia sua empresa e passaríamos a vida viajando pelo mundo, nossos filhos teriam os seus olhos, a sua boca e os meus... bem, creio que seria melhor se puxassem a mãe por completo. Inúmeras juras sinceras e finais felizes que não tinham a menor pretensão ou obrigação de se concretizarem.


Não sabia por quanto tempo mais a teria ao lado, mas não deixaria de viver aquela paixão por medo de perdê-la. Tampouco intencionava restringi-la ao meu caminho, apenas a amava por estar ali, oferecendo sinceramente o que havia de melhor em mim, ausente de qualquer expectativa de retorno.


Costumamos perceber o amor de forma emaranhada, reduzindo um conceito amplo e profundo a uma noção rasa e simplista. A cultura grega, por sua vez, possui muitas definições distintas para se referir ao amor. Uma destas é “Eros”, que se refere ao amor erótico e à paixão. A outra é Philos”, representando o sentimento de amizade, companheirismo e irmandade. Por fim, há o “Ágape”, amor divino, incondicional, da generosidade desinteressada, o amor que dá sem pedir e que se regozija com a alegria do outro.


Nossa concepção de amor é demasiadamente pobre e, muitas vezes, até egoísta. Corriqueiramente o confundimos com sentimentos distintos, como possessividade ou apego. O apego é algo compreensível, buscamos eternizar aquilo que um dia nos trouxe felicidade, ancorando-nos em uma ilusória sensação de segurança. Sentimo-nos mais confortáveis com aquilo que já nos é familiar, ainda que o aprazível tenha se revertido em suplício. Apegamo-nos até mesmo ao sofrimento, persistindo em formas antiquadas e nos agarrando a coisas que nos calharam algum dia, mas que já não nos servem mais. Ao passo em que procuramos preservar aquilo que já conquistamos, empenhamo-nos também em atingir mais troféus para a nossa abarrotada prateleira de títulos vazios, refletindo a miséria interna que nos impele a acumular obsessivamente, pessoas e objetos, numa eterna sensação de falta. Vivemos em casas cheias com os corações vazios, seguindo como equilibristas trôpegos, na tentativa de dominar um número reiteradamente maior de pratos e, por fim, acabamos por deixar caírem todos. À medida que os pratos caem, porém, sentimo-nos mais leves. Percebemo-nos rindo de nós mesmos ao compreender quanto tempo desperdiçamos carregando fardos que apenas nos pesavam as costas, atrasando a viagem.

Hoje entendo que os momentos de maior plenitude em minha existência não foram aqueles onde conquistei ou obtive algo externo, mas sim quando abri mão de algo que se tornara desarmônico: desejos mesquinhos, velhas e densas mágoas, responsabilidades infrutíferas ou pessoas que não mais podiam ficar. Os ápices de alegria se deram quando me desfiz daquilo que já não convinha: roupas velhas, relacionamentos tóxicos, opiniões e identidades que não mais me vestiam e até mesmo pedir demissão de um emprego onde me sentia explorado. Os instantes mais coloridos que já vivi foram aqueles onde me reencontrei com a própria liberdade.

Apego é prisão, miséria que esmola complemento. Amor não é preenchimento, o outro não completa, só preenche o que vem de dentro. Amor é vazão, transbordar a si mesmo. Não é súplica, nem espera réplica, o Amor não pede recompensa - dá-se por si só e por si só se contenta. O Amor é senhor, o desejo, vassalo. A viagem me ensinava a não levar nada com os punhos cerrados, mas com as mãos abertas, de maneira delicada, como quem carrega uma borboleta, pois amar não é reter, e sim apreciar. Não há como perder aquilo que não se possui.

Apego é prisão, miséria que esmola complemento. Amor não é preenchimento, o outro não completa, só preenche o que vem de dentro. Amor é vazão, transbordar a si mesmo. Não é súplica, nem espera réplica, o Amor não pede recompensa - dá-se por si só e por si só se contenta.

A estrada, enfim, anunciava a cisão. Era inevitável, nós sabíamos, mas insistíamos em obliterar. Meu visto já vencia e Turkan precisava voltar à sua filha e empresa. Uma vez mais, poderia ter ficado, recomeçar a vida ao lado dela, criar raízes, mesmo em um solo desconhecido – parecia ser uma boa opção. Uma vez mais, o dever não me permitia prevaricar. Tinha uma missão a cumprir, ainda que não soubesse bem qual. Precisava seguir, com ou sem ela. Não havia medo em nossa despedida, apenas amor. Sentíamo-nos afortunados pela oportunidade de viver aquela intensa e inesperada paixão. De mãos dadas, entregamos nosso destino à estrada, já não nos cabia a decisão.

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