Cap. XIX - O Santo que quase me custou a vida!

Há um quê de excitação naquilo que amedronta. Alturas elevadas me fascinam na mesma medida em que assustam. Com as pernas trêmulas e o esfíncter rijo, encontrei-me rumando em direção ao Annapurna Circuit, um dos trekkings mais altos do planeta. Seriam duas semanas de subida por entre as traiçoeiras montanhas, cruzando o lago mais alto do mundo e atravessando aquela que é considerada, por alguns, a estrada mais perigosa do globo.


Antes de chegar ao Nepal, nem mesmo sabia da existência desse circuito, mas após ouvir seu nome euforicamente mencionado amiúde por todos os aventureiros que encontrei em Kathmandu, como se fosse uma deidade bela e perigosa, decidi que deveria conhecê-lo, embora não tivesse nenhuma experiência em fazer trekking. Os viajantes se preparam por meses para essa longa caminhada, trazendo consigo mapas, equipamentos e roupas especiais, itens de sobrevivência da mais alta tecnologia e, até mesmo, uma equipe de suporte. Eu trazia apenas a minha insensatez e as botas que me levaram até ali. Os guias locais riam impressionados com minhas histórias e coragem (bem, talvez eles evitassem a palavra imprudência, para não me ofender) e decidiram me ajudar. Em alusão aos gurus que habitam as montanhas, apelidaram-me de Baba Bihari, por conta da saia hindu que trajava e pelo fato de ter morado numa caverna. Pandit e Uneshmas, dois experientes preceptores das trilhas montanhosas, desenhavam no mapa o roteiro e as informações que eu deveria seguir com precisões cirúrgicas, ao passo em que começava a compreender o tamanho da loucura que estava fazendo. Aprendera a parecer versado em assuntos sobre os quais não tinha nenhum conhecimento, de forma a conseguir descontos ao camuflar minha ignorância. Se eles tivessem percebido a minha inexperiência, provavelmente desaconselhariam a aventura, ou, ao menos, a não fazê-la sozinho. Trazer um guia comigo, entretanto, não era uma opção. Deveria economizar cada centavo possível, caso quisesse continuar viajando.


A caminho das montanhas, em um furgão realmente apertado e com uma bunda desconhecida disputando o espaço com o meu rosto, conheci um turco peculiar e de temperamento volátil. Burak trabalhava ilegalmente nos EUA, em uma das empresas do controverso presidente Donald Trump, símbolo de retaliação e intolerância contra imigrantes clandestinos (sobretudo os oriundos de países islâmicos, como a Turquia), mas que, ironicamente, parece fazer vistas grossas quando se trata de conseguir mão-de-obra barata para seus próprios empreendimentos.


Tudo passou a dar invariavelmente errado a partir do momento em que eu e Burak nos encontramos. Nossa van pifou no exato momento em que apertamos nossas mãos. Após várias horas aguardando socorro, seguimos apertados feito sardinhas pelas irregulares e resvaladiças rodovias que levam ao início da trilha, atravessando rios caudalosos e lama profusa. Com o intuito de recuperar o tempo perdido, pegamos carona na caçamba de um jipe apinhado de nepaleses, que seguia imprudentemente pelas perigosas estradas, costeando os altos e belos abismos, ao passo em que saltávamos como se estivéssemos num touro mecânico desgovernado que se esforçava para nos derrubar penhasco abaixo. A diversão inicial logo deu lugar ao cansaço e ao medo. Quedas fatais são mais do que corriqueiras naquelas vias e um carro havia despencado no dia anterior, matando quatro pessoas.


Chegamos ao anoitecer num pequeno vilarejo, ao lado de um impetuoso rio. Dividimos a hospedagem com um jovem israelense. Era animador ver um muçulmano e um judeu compartilhando suas diferenças históricas de maneira harmoniosa. Apesar da cama dura, dormi tranquilamente, anestesiado pelo relaxante som da cascata que escorria ao lado da janela.


Logo as trilhas se tornaram mais íngremes e estreitas, à medida que o clima esfriava. Diante das escarpas colossais, sentia-me como um pequeno inseto curioso vagueando pelo Universo. Burak direcionava sua energia para a caminhada, resguardando as palavras. Andávamos lado a lado, mas era como se cada um seguisse a própria trilha. O silêncio e as paisagens exortavam à reflexão e as montanhas me ensinavam como nenhum outro professor.


As hospedagens eram verdadeiramente baratas e reduziam-se a colchões velhos em pequenos dormitórios de pedra. Não havia armários, aquecedores e nem mesmo tomadas. Considerávamo-nos com sorte quando encontrávamos pousadas com água quente. As refeições, em contrapartida, tinham seu preço superfaturado, a ponto de que era possível conseguir um quarto de graça, desde que você comesse no albergue. Os três primeiros dias de trilha foram de pura contemplação, apesar do cansaço. Caminhávamos ao lado de rios tão cândidos que era como se o próprio céu fluísse por entre os cânions imaculados. Água fria, limpa e abundante. Marchávamos por horas a fio, fazendo pequenas pausas para descansar, repor nossos cantis ou quando o cenário era tão impressionante que até mesmo os pés se recusavam a continuar. O esplendor da paisagem furtava-nos o fôlego mais do que a própria fadiga. Eu custava a acreditar que algo tão belo pudesse ser real, era como subir as escadarias do próprio paraíso.


Durante o quarto dia de circuito, tomei ciência de que, no alto de um dos montes, encontrava-se a caverna onde residira um antigo e renomado santo budista. Milarepa fora um sábio feiticeiro tibetano do século XI e eu estava fascinado pela possiblidade de meditar na gruta desse mestre milenar por quem sempre nutri profunda reverência. Para isso, contudo, teria de atravessar uma geleira há 4.000 metros de altitude. Já era possível encontrar neve em abundância naquela altura, porém, o calor da determinação derretia qualquer hesitação. Juntamo-nos a um grupo de três jovens aventureiros que afirmaram conhecer o caminho. Bem, eles não conheciam o caminho.


Após o desjejum, deixamos o hotel e abandonamos a estrada principal para seguir uma rota que levaria até a montanha de Milarepa. Atravessamos um portal budista erigido em pedras brancas, vermelhas e negras e adentramos a mata de coníferas que fraldava as colinas. Seguíamos animados por uma pequena trilha de chão batido, que se desfez em algum momento da andança. Após uma hora de caminhada, a floresta deu lugar a um rio que descia diretamente das escarpas e, nesse momento, admitimos estar perdidos. “Jamais saia da trilha”, recordei a mim mesmo, essa era uma preciosa lição e não a seguir quase me custou a vida em mais de uma ocasião.


Constatamos, no mapa, que o rio era resultado do derretimento da geleira e que, se subíssemos por ele, poderíamos chegar à caverna. O que parecia uma boa escolha logo se revelou uma estúpida e imprudente ideia. O terreno se tornava mais íngreme e escorregadio conforme ascendíamos a montanha, mas não estávamos assustados. Não ainda. Podíamos ver a trilha correta pouco acima de nós, porém ela se mostrava cada vez mais distante e inacessível, à medida em que as escarpas nos empurravam para o outro lado. A cada passo dado, o retorno se fazia mais difícil, a subida mais perigosa e a coragem vacilante. Pequenas avalanches de cascalhos soltos tornavam a situação ainda mais alarmante, como a trilha sonora de um filme de suspense, enquanto nos arrastávamos pelos paredões traiçoeiros, tentando mascarar o próprio medo.


A marcha fluída se converteu numa escalada lenta e fatigante, até que simplesmente rastejávamos pelo declive, segurando-nos como era possível. Depois de algumas horas, encontrávamo-nos totalmente encurralados num ponto crítico: não era mais possível subir, nem acessar a trilha e, tampouco, voltar. Estávamos presos em um terreno absolutamente vertical, com um mortífero abismo sob os pés e sem nenhum lugar em que pudéssemos nos ancorar, salvo algumas rochas frouxas. “Isso aqui está perigoso demais!”, berrou um dos meninos - já não tentávamos dissimular nenhuma valentia, só queríamos sobreviver. O vento forte uivava, impelindo-nos em direção à ladeira. Tentava não olhar para trás, mas a vertigem é como um imã sádico, “se eu cair daqui, por certo quebro o pescoço”, calculei, enquanto invejava as cabras montanhesas que faziam a travessia despreocupadamente. Não estava livre dos riscos, mas poderia, ao menos, resguardar-me do desespero. Se encontrassem meu corpo, ao menos que estivesse com as calças limpas. Trouxe a atenção para dentro e usei toda a força e concentração que pude conjurar para me apoiar numa raiz podre e severamente suspeita, ficando totalmente suspenso no desfiladeiro. Após um grande esforço, consegui chegar numa crista entre dois paredões. Fizemos uma corrente humana para que todos conseguissem subir.


“AHHHH! ESTAMOS VIVOS!”, o êxtase momentâneo ecoava pelas montanhas, “E agora, como faremos para sair daqui?!”.


O cenário era nada animador. Ainda estávamos encurralados pela montanha. Paramos para respirar e recobrar a razão – a iminência da morte nos furtava a lucidez. O medo causava paralisia, apesar da estonteante visão da mundialmente famosa cadeia de montanhas. Olhando para baixo, surpreendia-me ao notar o quanto havíamos subido: pradarias e vales intermináveis se estendiam por todos os lados, a vegetação vestia num verde-oliva as montanhas que varavam o céu, fazendo as nuvens parecerem formosas ombreiras de seda branca. O cenário era tão divino que uma ode começava a surgir em minha mente. “Foda-se a poesia, preciso sair daqui!”, recordei a mim mesmo, interrompendo os versos natimortos. À nossa frente, uma assombrosa geleira, lisa e traiçoeira, derretia lentamente. Estava realmente assustado, peguei meu celular cogitando ligar para o resgate, mas não havia qualquer sinal de telefone por ali. Era possível ver a caverna sagrada do outro lado do vale, com um velho arco pendurado à sua entrada, conforme rezam as lendas, mas chegar até ela já não era uma opção, nem mesmo um desejo. As rajadas de vento se tornavam progressivamente mais intensas, fustigando nossos corpos à beira da falésia. Tínhamos de agir rápido ou a ventania decidiria por nós. Os outros três garotos optaram seguir montanha acima, para tentar encontrar uma passagem pela geleira, enquanto eu e Burak resolvemos voltar pelo outro lado da escarpa. Ainda que gravemente vertical, ao menos havia alguma vegetação que tornava o solo menos instável. Além do risco da queda, tínhamos outro problema: a floresta era habitada por ursos selvagens, famosos por desfigurar os rostos de turistas incautos.


Valendo-se dos ensinamentos de sobrevivência de Bear Grylls, decidimos seguir montanha abaixo até encontrar um rio, usando a regra dos três apoios para nos escorar nos paredões (“quem diria que os conhecimentos do Discovery Channel um dia seriam úteis a este moleque da cidade”, quase consegui rir, afastando o terror). Descemos pelo penhasco entre tombos, arranhões e membros torcidos, arrastando-nos pela mata rasteira e pelos arbustos. Árvores maiores surgiam conforme baixávamos altitude, pinheiros e cedros dourados à luz do sol começavam a irromper pelo caminho. Ainda era dia, mas a lua cheia já surgia translúcida, coroando o cume nevado acima de nós. A mata se mostrava mais densa e o terreno mais seguro.

Após mais algumas horas de caminhada, ouvimos o fluir de um estreito córrego próximo a nós. O som da esperança. Poucas sensações foram tão prazerosas quanto banhar o rosto naquela água pura e gelada. Seguindo o curso do abençoado regato, chegamos a um cristalino e caudaloso rio. Margeamos o flúmen até o entardecer, quando ouvimos o tilintar do sino no pescoço de uma vaca e urramos de alegria ao avistar bandeirolas budistas tremulando ao vento. Ao longe, pequenos casebres forrados em colmo me faziam esquecer todo o cansaço. Estávamos a salvo.


Ainda fomos a um monastério no alto de um morro, agradecer pelo desfecho. Era um templo colorido, comandado apenas por mulheres. Ao lado de uma majestosa estupa, degustando guloseimas oferecidas pelas monjas generosas e fitando a altiva montanha que quase me custara o corpo, sentia-me o homem mais afortunado do mundo, mesmo sem ter recebido nada além do que já possuía. A vida se torna mais doce quando vislumbramos a morte. “Uma prece e uma bera, é um bom jeito de venerar a Vida”, pensei enquanto caminhava ao bar. Junto dos outros rapazes (que, benditos sejam, também haviam retornado), fechamos o dia em comemoração, com uma saborosa cerveja local e um calórico prato de momos fritos, crendo que dali em diante não teríamos mais problemas. Mal sabia que aquela era apenas a ponta do iceberg.

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