Um relato sobre morte e renascimento



Hoje eu morri e voltei à Vida, no espaço de uma noite curta. Não me recordo muito, mas me lembro de ter trocado umas poucas palavras com uma grande amiga, a quem muito tenho amor. Ela estava confusa e precisava de orientação. Gostaria de tê-la ajudado mais, mas eu estava sem tempo e um tanto chateado – meu avião partiria em breve. Caminhei com pressa pelo saguão do aeroporto e embarquei na aeronave. Para onde eu estava indo? Não sei, mas ouvi o som das turbinas aquecendo e fui procurar meu lugar – logo teria início a viagem.


O avião acelerava enquanto eu ainda caminhava em direção ao fundo. Foi uma decolagem difícil e logo começaram as turbulências. A aeronave estava instável e os passageiros preocupados. A inquietação converteu-se em desespero, conforme vacilávamos sobre o céu. Corri para o último assento, ainda encontrei calma para ser gentil e pedir licença. Acontecia algum tipo de pane e perdíamos altitude rapidamente. Máscaras de oxigênio caiam do teto e o alerta soava pelo ar. Apertei o cinto e coloquei a cabeça sobre os joelhos, como manda o protocolo, à medida em que a mulher ao meu lado gritava exasperada.

Iríamos fazer um pouso forçado sobre um lago no meio da cidade. Aquele poderia ser meu último momento, disso eu tinha consciência, então me embebi de fé e comecei a minha oração para a morte, mantendo o pensamento estável em Deus, seguindo as instruções do Livro Tibetano dos Mortos. Um erro de cálculo do piloto e erramos o lago. Agora era inevitável, iriamos bater.


Lembro que aceitei a morte com confiança e dignidade, não deixaria grandes pendências na Terra. Percebi-me contente por me sentir preparado – há muito eu treinava para este momento. Não me recordo da batida, mas sim de uma clara luz. “Será que pousamos?”, eu me perguntei, enquanto levantava a cabeça. Não era possível enxergar muito, uma penumbra silente invadia o ambiente. Mantive o foco e o equilíbrio, embora não houvesse sensações físicas. “Vamos manter a calma”, disse aos passageiros, mas não conseguia ver os seus rostos.


Procurei por uma saída de emergência e removi a porta, sem saber o que encontraria do lado de fora. Desci com cuidado, com a ajuda de outro viajante, e me descobri no meio de um hangar fechado e cinzento. Uma espécie de estado intermediário. Havia outra aeronave ao lado, mas nada acontecia.


“Bem, não deve ser aqui, disse a minha intuição à minha mente confusa. “É melhor voltarmos para dentro”, aconselhou o outro homem.


“Tudo bem, você primeiro”, devolvi a gentileza.


O avião, então, começou a se mover sobre o solo. Ele estava intacto. Entramos em uma espécie de túnel que levava para baixo. “Talvez eu esteja morto”, pensei assombrado, recordando-me dos relatos de pessoas que haviam vivido experiências de quase morte. O avião agora havia se transformado em um ônibus, e o motorista nos conduzia por uma estrada mais iluminada, como que em um passeio num domingo ensolarado.


Desci em algum ponto, onde uma tia minha me esperava. Ela era espírita e me senti seguro ao reencontrá-la. Descíamos agora, em sua moto, por uma estrada levemente sinuosa e margeada por campos verdejantes. O sol pálido refletia sobre a relva, induzindo à uma sensação de calmaria.


Chegamos a um pequeno parque de diversão, onde crianças brincavam alegremente. Na entrada me esperava um homem velho, com a pele morena e vestindo uma boina humilde. Era Chico. Chico Xavier.


- Chico! Chico! Que bom te encontrar!”. Com um sorriso amoroso ele me recebeu em um abraço acolhedor. Senti-me calmo e feliz.


“Chico, eu estou morto?”, perguntei inocentemente.


“Vida ou morte, não há tanta diferença, meu filho. Não se assuste, é natural. Essa é uma passagem que todos os seres que nascem um dia farão. E a morte não é o fim, é o sopro renovador da vida.”


“Mas, Chico, eu ainda não publiquei o meu livro! E também gostaria de ter ajudado a minha amiga. Não pude me despedir dela propriamente. Bem, o livro já está pronto e será publicado mesmo sem minha presença... Mas eu gostaria mesmo de tê-la ajudado”, lamentei a ele, revelando os meus apegos.


“Nada jamais se perde, pois tudo e todos estão intrinsecamente conectados. Ficar ou partir, é sua decisão é sua, meu filho.”, disse-me ele, sem perder o seu sorriso jovial.


Recordei-me do momento da encarnação de André Luiz, um dos espíritos que guiava Chico Xavier. Descobri, há pouco, que fui batizado em sua homenagem. Sei que os nomes têm poder, mas não tenho certeza sobre o que isso significa. Algo me puxava e atravessei um tipo de portal sob o qual não me sinto apto a falar.


Abri os olhos em meio ao escuro, tentando compreender onde estava. Percebi-me em meu quarto, tudo não passará de um sonho. Será? O Livro Tibetano dos Mortos afirma que o bardo da morte é muito semelhante ao bardo do sonho, onde a mente vaga livremente, desassociada do corpo. Podemos usar este para treinar a nossa mente quando o outro vier.


De modo que seja, fiquei com medo de voltar a dormir e não mais retornar. Levantei-me decidido a permanecer neste sonho coletivo e escrever este texto às quatro da manhã, para recordar que a vida é breve e o fim pode surgir a qualquer instante. Cada palavra é a última palavra. Cada encontro é o último encontro. Quantos versos já murcharam na crença de que haveria uma próxima vez? A iminência da morte evidencia a o valor da Vida, revelando que apenas o Amor é urgente.


As lembranças começam a desvanecer e amanhã já não pensarei mais nisso. O esquecimento é o primeiro e maior mal da humanidade. Mas que eu me lembre sempre de amar, então, poderei partir em paz, tendo cumprido com o meu propósito.

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